A culpa é dos meus genes: as bases genéticas e neuropsicológicas do comportamento antissocial

Terapia baseada nos esquemas: Uma luz ao fundo do túnel?

 

U.C. de Introdução às psicoterapias (com ligeiras modificações)

 

2017

 

 

Maria Madalena Teodósio

Licenciada em psicologia pela Ualg,

Pós-graduada em neuropsicologia clínica

 

 

E-mail de contato:

mmadalenateodosio@gmail.com

 

 

RESUMO

 

Estrabalho foi realizado no âmbito da disciplina de introdução às psicoterapias do curso de licenciatura em psicologia da Universidade do Algarve. Foi ligeiramente alterado para ser mais criterioso e assim haver maior sistematização desta mini-revisão da literatura sobre a eficácia da Terapia baseada nos esquemas.

 

Palavras-chave: patologia, psicoterapia, psicoterapia baseada nos esquemas, perturbação de personalidade, classe B.

 

 

 

 

 

 

 

Introdução – O que é a psicoterapia baseada nos esquemas e como se implementa?

 

A terapia baseada nos esquemas constitui uma ampliação da terapia cognitiva (a qual foi associada à comportamental). É uma abordagem integrativa com o objetivo de tratar pacientes com perturbações de personalidade e outras patologias persistentes (depressão crónica, etc.), partindo do princípio que os indivíduos possuem necessidades emocionais para se desenvolver e estabelecer relações saudáveis (Barbosa, Terroso & Argimon, 2014).

    Na TBE, as principais bases conceptuais e terapêuticas provêm da abordagem cognitivo-comportamental, tendo como uma das bases a teoria cognitiva dos esquemas (Young, 2003) - diz respeito ao modo como o cérebro estrutura o conhecimento (Pankin, 2003). Um esquema é um padrão de pensamento e comportamento, uma estrutura de ideias pré-concebidas, sistema organizador da informação. Os esquemas desenvolvem-se e mudam com base em novas informações e experiência (Pankin, 2003). Na TBE, os esquemas mal-adaptados foram aprendidos durante a infância, podendo formar-se numa época pré-verbal do desenvolvimento (Young, 2014).

    Existem estratégias/estilos de coping, que constituem respostas comportamentais aos esquemas. Quando estes são mal-adaptados podem reforçar os esquemas (Young, Klosko, & Weishaar, 2003).   

    Modo é um estado temporário para o qual a pessoa muda ocasionalmente ou frequentemente, o qual compreende um estilo de coping e um esquema, activados por uma situação de stress(Young et al., 2003). Se as necessidades emocionais básicas de uma pessoa não forem atendidas durante a infância e /ou se a criança sofrer abusos ou tiver uma relação disfuncional com os pais ou outros cuidadores principais, então ela pode desenvolver estratégias de coping e esquemas mal adaptados, tais como o esquema do abandono/ instabilidade (expectativa de que logo serão perdidas as pessoas com as quais se cria vínculo emocional), privação emocional (crença de que as necessidades emocionais primárias nunca serão atendidas – afeição, proteção, etc.), desconfiança/abuso (a crença de que vão magoá-las, enganá-las ou desprezá-las), isolamento social/ alienação (crença de ser diferente, de estar isolado do mundo), defectividade/vergonha (crença de que é internamente defeituosa e que, se os outros se aproximarem, perceberão isso e se afastarão), fracasso (crença de que é incapaz de ter um desempenho tão bom quanto o dos outros ), dependência/incompetência, vulnerabilidade a danos ou doenças, subjugação (crença de que necessita de se submeter ao controlo dos outros para evitar consequências), auto-sacrifício, inibição emocional (crença de que é preciso inibir emoções/ impulsos porque uma expressão de sentimentos prejudicaria outros/ o próprio), padrões inflexíveis e crítica exagerada (crença que nada do que faz é suficientemente bom), merecimento/grandiosidade, auto-controlo insuficiente (Young et al., 2003).

    Ao nível cognitivo, a pessoa tem uma atenção tendenciosa, sobrevaloriza informações consistentes com o esquema mental. Os modos são categorizados da seguinte forma: Modos Infantis, Modos Disfuncionais de Coping, Modos Parentais Disfuncionais e Modo Adulto Saudável (Young et al., 2003).  Embora não existam estudos a respeito, duas questões são pertinentes de levantar: será que a existência de “modos infantis” pode levar os pacientes a sentirem-se infantilizados e vulneráveis, o que pode fazer com que evitem abordar o assunto, prejudicando o tratamento? Será que a expressão “modos parentais disfuncionais” faz os pacientes sentirem-se comparáveis aos que os maltrataram ou negligenciaram? Há que atentar nestas possibilidades e na linguagem verbal/ não verbal do paciente aquando da menção destes termos. 

    A TBE inclui elementos de outras abordagens, tais como a psicodinâmica (Bamelis, Evers, Spinhoven, & Arntz, 2014) e a gestalt (Barbosa et al., 2014) – terapia existencial/ humanista, com influência psicodinâmica. Relativamente à gestalt destaca-se o diálogo entre a parte do esquema do paciente e a saudável, e o diálogo simulado com os pais. A técnica limited reparenting (Young et al., 2003), providencia experiências que faltaram na infância, cobrindo uma vasta gama de necessidades psicológicas (ligação afectiva prazer/alegria, limites adequados, autonomia), podendo envolver auto-revelação, brincadeira, apoio, firmeza e confrontação (Lockwood, 2008), modificando os modos e as relações objetais, pois estabelece uma vinculação segura (Ogden, 2010). Relação objetal é um conceito da teoria das relações objetais (psicodinâmica), que se define como relação emocional entre sujeito e objeto (pessoa ou representação) que, através de um processo de identificação, contribui para desenvolver o ego. 

 

REVISÃO SISTEMATIZADA

Critérios para sistematização

 

A partir daqui usarei apenas alguns estudos com amostras aleatórias a partir do ano 2005, provenientes de uma pesquisa no Medline e no Google Scholar para determinar se esta terapia é adequada para tratar perturbações de personalidade. No entanto, de acordo com uma revisão (Bakos, Gallo, & Wainer, 2015) estudos controlados com amostras aleatórias são escassos.

 

Discussão dos Resultados  Empíricos

 

    Os resultados empíricos (Giesen-Bloo et al., 2006) para o tratamento de perturbações de personalidade, sobretudo para pacientes com perturbação de personalidade borderline, são superiores aos da terapia baseada na transferência (de base psicodinâmica) e a taxa de desistência é menor.

É também sabido através da literatura (Matusiewicz, Hopwood, Banducci, & Lejuez, 2011) que esta perturbação é tratável através da TCC, e que a primeira escolha é a terapia dialético-comportamental, também integrativa, de base cognitivo-comportamental com alguns elementos da psicodinâmica e da gestalt (mentalização), a qual utiliza técnicas diferentes da TBE, focando-se mais no equilíbrio entre necessidade de mudança e aceitação, com uma visão biopsicológica da etiologia da PPB.

    Há pelo menos um autor (Montgomery-Graham, 2015) que considera a TBE uma boa alternativa devido aos resultados de uma meta-análise que sugerem que esta pode ser tão eficaz como a TDC em certos aspectos; ainda segundo este autor, os métodos diferentes da TBE e da TDC poderão estar a desemprenhar as mesmas funções, daí serem ambas eficazes.

    A TDC está estabelecida como tratamento específico e eficaz para a perturbação da personalidade borderline, com um corpo de evidências maior, o que me faz questionar a necessidade da utilização da TBE, exceto em pacientes com uma perturbação de personalidade ou outros problemas persistentes para os quais a TDC não resulta. Ainda assim, segundo alguns autores (Giesen-Bloo et al., 2006) nos pacientes com perturbação da personalidade borderline a recuperação pode ser total para 52% dos pacientes usando a TBE.

    Resultados preliminares são prometedores em populações institucionalizadas com perturbação de personalidade antissocial, borderline, narcísica, ou paranoide, incluindo indivíduos com classificações elevadas na PCL-R (Bernstein, et al., 2012).

    É considerada ainda hoje uma inovação e é abrangente na sua abordagem, o que é uma mais-valia e é também uma luz ao fundo do tunel para aqueles que são geralmente difícéis de tratar

 

 

Conclusão

 

Esta terapia possivelmente será, após ser realizada mais investigação, uma boa primeira escolha para o tratamento de certas perturbações de personalidade (como a antissocial e a narcísica), bem como de indivíduos psicopatas, pois não há nenhuma forma de tratamento melhor. No entanto, sendo a TDC adequada para o tratamento de pacientes com perturbação borderline da personalidade, a TBE só deve ser usada em caso de fracasso com a primeira.

    É uma mais-valia para pacientes com perturbações da personalidade, sobretudo de classe B. Equipa os psicólogos para lidarem com este tipo de patologia de uma maneira nunca antes vista para certas patologias como a Perturbação de personalidade anti-social e narcísica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

- Bakos D. S., Gallo, A. E., & Wainer, R. (2015). Systematic review of the clinical effectiveness of schema therapy. Contemporary Behavioral Health Care 1.

 

- Bamelis, L. L., Evers, S. M., Spinhoven, P., & Arntz, A. (2014). Results of a Multicenter Randomized Controlled Trial of the Clinical Effectiveness of Schema Therapy for Personality Disorders. American Journal of Psychiatry, 171(3).

 

- Barbosa, A. S., Terroso, L. B., & Argimon, I. I. L. (2014). Epistemologia da terapia cognitivo-comportamental: casamento, amizade ou separação entre as teorias? Boletim - Academia Paulista de Psicologia, 34(86).

 

- Bernstein, D. P., Nijman, H. L. I., Karos, K., Vos, M. K., Vogel, V., & Lucker, T. P. (2012). Schema Therapy for Forensic Patients with Personality Disorders: Design and Preliminary Findings of a Multicenter Randomized Clinical Trial in the Netherlands. International Journal of Forensic Mental Health, 11(4).

 

- Giesen-Bloo, J., van Dyck, R., Spinhoven, P., van Tilburg, W., Dirksen, C., van Asselt, T., Kremers, I. P., Nadort, M., & Arntz, A., (2006). Outpatient psychotherapy for borderline personality disorder: randomized trial of schema-focused therapy vs transference-focused psychotherapy. Archives of General Psychiatry, 63 (6).

 

- Lockwood, G. (2008). Limited Reparenting. Recuperado em 2 de Março, 2017, de http://www.schematherapysociety.org/Limited-Reparenting.

 

- Matusiewicz, A. K., Hopwood, C. J., Banducci, A. N., & Lejuez, C. W. (2010). The Effectiveness of Cognitive Behavioral Therapy for Personality Disorders. The Psychiatric Clinics of North America, 33(3).

 

- Montgomery-Graham, S. (2015). DBT and Schema Therapy for Borderline Personality Disorder: Mentalization as a Common Factor. Journal of Contemporary Psychotherapy, 46(1).

- Ogden, T. H. (2010). Why read Fairbairn? The International Journal of Psychoanalysis 91 (1).

 

- Young, J. E. (2003). Terapia Cognitiva para transtornos de personalidade: uma abordagem focada em esquemas - 3ª ed. Porto Alegre: Artmed.

 

- Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema therapy: a practitioner's guide. New York: Guilford Press.

 

- Young, J. E., (2014). Schema Therapy: Basic Concepts. Recuperado em 2 de Março, 2017, de http://ld106.inmotionhosting.com/~therap7/schematherapy.com/Revised%20schema%20theory%20complete%20Feb%202004%20b_files/v3_document.htm

A capacidade dos psicopatas de sentir emoções quando os magoam: implicações na influência genética e ambiental da patologia

 

Maria Madalena Teodósio

 

Sumário

 

Este estudo foi feito no âmbito da licencitura em psicologia e foi escrito o trabalho, realizado no âmbito de pôr em prática os ensinamentos das várias unidades curriculares da licenciatira em psicologia da Universidade do Algarve. Estes dados foram recolhidos e analizados no ano lectivo 2014/2015 (1º ano de licenciatura). É sobre a maneira como os psicopatas podem sentir emoções quando os magoam, tal como as pessoas comuns e as implicações dessa análise – incluindo para a hereditariedade da patologia.

 

Introdução

 

Num grande número de casos os psicopatas sofreram agressões (abuso) físicas, verbais e emocionais. Eles supostamente construíram uma defesa, usando como base a sua pre-disposição genética (Tuvblad, & Beaver, 2013), que os deixou emocionalmente “desligados” perante ocorrências dessas e de outras de um modo geral, incluindo falta de empatia, falta de reconhecimento dos direitos dos outros (Bird, & Viding, 2014). E em relação a eles próprios? Será que essas defesas são bem sucedidas? É conhecido que não reconhecem o medo nas expressões faciais (Association of psychological science, 2011) e que os seus cérebros têm muito menos actividade quando deveria haver uma resposta emocional. Segundo uma revisão da literatura (Koenigs, 2012), alterações no córtex orbitofrontal e pré-frontal, o qual desempenha uma série de funções, como as tomadas de decisão social e afectiva que parecem estar alteradas em indivíduos psicopatas, têm vindo a ser associadas à psicopatia – foram encontradas tanto anormalidades volumétricas estruturais (incluindo défices na densidade da matéria cinzenta e branca, inclusivamente nas fibras que ligam a amígdala ao córtex pré-frontal ventro-medial), como défices funcionais. Algumas das alterações são, mais especificamente, uma redução da espessura cortical no córtex pré-frontal lateral direito e, em menor grau, no Ventro-medial direito e no córtex anterior cingulado. Nessas áreas, a espessura cortical foi negativamente correlacionada com a faceta afectiva da psicopatia. Mas será que eles sentem quando os magoam? Cada pessoa se sente de modo diferente quando é magoado, mas será que tal como o comum dos mortais eles têm sentimentos  (como adultos) para com quem os magoou? Será que podemos datar isso até à infância? Sentirem-se tristes, assustados como qualquer pessoa diz-nos que eles não nasceram asssim? Sentir emoção diz-nos algo acerca dessa questão que procuramos responder há anos e anos em psicologia forense. Isso certamente terá implicações na sua condenação em tribunal, de um modo que pode pôr em causa a sua responsabilidade perante os seus actos ou a falta deles. Entretanto, será o abuso também uma boa desculpa e não só uma alteração genética? Todas estas questões podem ser respondidas pela ciência. Podemos começar por um  simples estudo percentual em que se consideram as respostas de 25 psicopatas a um questionário por mim elaborado. Será descrito na próxima secção – a de métodos utilizados para realizar este pequeno estudo que vem levantar e tentar perceber em parte estas questões.

   As questões científicas que aqui se levantam são também pertinentes para o tratamento – serão eles capazes de sentir emoção? Se sim, como poderemos dirigi-la para o exterior e não apenas para o próprio. Este estudo pretende saber numa amostra considerável quais as percentagens de psicopatas que sentiram e não alguma emoção e qual ao serem abusados e ainda hoje em dia em relação a quem os maltratou.

    Este trabalho foi realizado no âmbito de pôr em prática os ensinamentos das várias unidades curriculares da licenciatira em psicologia da Universidade do Algarve. Estes dados foram recolhidos no ano lectivo 2014/2015.

 

 

Métodos utilizados

 

    O meu questionário era composto de respostas de “sim” ou “não”, para realizar as estatísticas (se sentiu ou não alguma emoção negativa relativamente ao agressor em cada uma das situações: como criança e como adulto), bem como algumas perguntas de resposta aberta para uma análise mais completa e profunda da mente do psicopata (“quais as emoções que sentiram ao serem abusados”). Foi uma obtenção de dados tipo bola de neve através da internet, usando a plataforma do tumblr. Os dados foram recolhidos no ano lectivo 2014/2015. A amostra foi de 25 psicopatas que responderam ao meu questionário via formulário google.

    Foram realizados os cálculos de percentagem no fim da obtenção dos dados e transpostos para o trabalho final. De modo a serem discutidos serão apresentados seguidamente. Foi usada uma calculadora gráfica Casio fx-9860-G.

 

 

Resultados

 

 

Sim

Não

Sentimentos negativos em criança (n)

17

8

Sentimentos negativos em adulto (n)

17

8

Percentagem de crianças e adultos com e sem sentimentos negativos %

68%

32%

 

2 dos psicopatas não coseguiram identificar os seus sentimentos, mas sentiram “algo”. Entre os sentimentos descritos em criança existe raiva, tristeza, medo, pavor – um role de emoções tal como seria de se esperar de qualquer criança atormentada, abusada, maltratada.

 

 

Discussão & Conclusão

 

    Estes resultados indicam uma expresssão emocional bastante predominante para uma população dita emocionalmente incapaz – 68% de emocionalidade negativa na amostra relativamente ao seu agressor. Tanto em crianças como nos dias de hoje. Em crianças o role de emoções descrito seria o de esperar de uma criança normal. Não pretendo com isto descartar as pesquisas que nos dizem que existem influências genéticas (Rhee, & Waldman, 2002). A influência genética existe, assim como a ambiental. No entanto será acertado chamarmos-lhe uma doença genética? Ou uma doença multifactorial? Sou contra uma visão reducionista quer que a balança penda para uma lado ou para o outro.

    Não se pode considerar a amostra grande, mas não se pode descartar o estudo pelo tamanho (intermédio) da amostra. Resta saber o que vai ocorrer em termos práticos de aplicação da lei, enquanto os cientistas trabalham para dar resposta a várias questões. Recapitulando, para concluir, são: Será que as suas defesas são bem sucedidas? Aparentemente é possível que não para alguns. Será que eles sentem quando os magoam e que podemos datar isso até à infância? Desta vez pelos resultados deste estudo a resposta é positiva para 68% deles.

 

 

Bibliografia

 

Bird, G., Viding (2014). E.The self to other model of empathy: Providing a new framework for understanding empathy impairments in psychopathy, autism, and alexithymia. Neuroscience & Biobehavioral Reviewes, 47

 

Tuvblad, C., & Beaver, K. M. (2013). Genetic and environmental influences on antisocial behavior. Journal of Criminal Justice, 41(5).

 

Koenigs, M. (2012). The role of prefrontal cortex in psychopathy. Reviews in the Neurosciences, 23(3), 253–262. http://doi.org/10.1515/revneuro-2012-0036

 

Rhee, S. H., & Waldman, I. D. (2002) Genetic and environmental influences on antisocial behavior: A meta-analysis of twin and adoption studies. Psychological Bulletin, 128(3).